Semestralmente, recebo um convite irrecusável do meu time de marketing: fazer o exercício de futurologia com as projeções do banco para o próximo semestre. Naturalmente, minha resposta instintiva seria um “não sei nem o que vou almoçar hoje”, mas os boletos nos movem pela vida e respondemos a isso com um sorriso no rosto.
Entra ano, sai ano, minha resposta sempre vai em linha com o que acredito — mas hoje, olhando um pouco mais de longe, percebi que a resposta não muda, apenas o range das projeções. Mas qual é a parte que não muda? A parte na qual o juro alto aceita desaforo.
Já usei essa analogia em algum texto perdido nesse vasto mundo das redes sociais: o mercado é exatamente como uma escola de samba desfilando. Todo ano uma musa nova, uma alegoria nova, mas, lá no fundo, o surdo marca o ritmo e determina a cadência de todo o resto. Temos a ala do cripto, as musas do COE, alegorias inteiras de coaches vendedores de golpes e sonhos. Lá no fundo, quem apura o ouvido encontra o surdo marcando o compasso — e isso é a renda fixa. Poucos foliões vão fundo nessa conta: entender de verdade todas as funções de uma HP12C, explorar as maravilhas dos juros compostos e o calor de uma NTN-B para daqui meio século.
É essa parte — a cozinha da escola de samba — que não deixa o samba morrer. Passamos por FHC, tivemos Lula, Dilma estoquista de vento, Temer Mumm-Ra o Ser Eterno, Bolsonaro Popcorn and Ice Cream e agora o Biden de Garanhuns. Ou seja, não somos o Mito, mas somos incomíveis e “imbroxáveis” — por conta dos juros altos. Somos bons no relativo; jamais seremos no absoluto.
O que é ser bom no relativo? Olhando para a América Latina ou para países com economias similares à nossa, somos aquele aluno que passou com a média mínima necessária. Não temos um ditador maluco, nenhuma guerra em curso ou em perigo iminente, nenhum grupo revolucionário armado. O perigo mesmo que temos é o povo e sua artimanha usurpadora — apelidada de jeitinho brasileiro, grande eufemismo para a mentira e a pequena corrupção do dia a dia: os cem reais para o guarda tomar um café e não lavrar a multa. Fato é que o país é uma zona, mas ninguém mata ninguém nesse grande cabaré. A cada dez anos caem alguns, levam outros junto, corta-se uma das cabeças da medusa — e a vida segue.
Além do “bom no relativo”, temos juros altos com um risco relativamente aceitável. E juro alto, como disse, aceita desaforo. O gringo releva os desatinos de um presidente que se autointitula incomível, do idoso que não fala coisa com coisa em público, e até a quebra de um banqueiro aqui e ali. E assim a vida segue.
Mas a minha indagação é: isso é bom? Óbvio que não — vocês ainda duvidam? Não somos ruins o suficiente para quebrar e recomeçar, nem bons o suficiente para sair desse mar de lixo que é a gestão pública. Quando convém, entra dinheiro de gringo, ele ganha seus trocados, sai com o câmbio mais baixo do que quando entrou, e ponto. Não entra dinheiro de verdade — salvo em poucos setores, de gente que vem produzir, gerar emprego, renda e riqueza. Eis um ciclo que vai demorar para se encerrar. O Brasil é aquele contato na agenda que ninguém descarta, mas ninguém assume o relacionamento por vergonha. Ficaremos sempre respirando por aparelhos e sendo consumidos pelos parasitas.


